As minhas lágrimas regam os sentimentos mais puros e verdadeiros e me fazem renascer a cada nova estação. (Mônica Caetano Gonçalves Maio/2011)
Registro na Biblioteca Nacional nº: 570.118

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Contraste



Imagem: Jean-Baptiste Debret – Museu Afro-Brasileiro


Ainda hoje são raros os que podem se dizer absolutamente livres da influência do preconceito racial, tão arraigado em nossa cultura que podemos vê-lo transitando em mão-dupla. Há expressões cotidianas, muitas vezes encontradas até mesmo na literatura que denotam o peso de parte de nossa história que já deveria ser página virada.  Nem mesmo depois da fotografia Kirlian, que comprovou que nossa aura de energia é multicolorida, aboliu-se o uso do termo negro de alma branca, por exemplo.

Lembrei-me de alguns versos de Cruz e Sousa tantas vezes impregnados de brancura. Nosso Cisne Negro encarnou o contraste entre sua origem negra e a educação nos moldes europeus que recebeu. Filho de escravos alforriados criou-se sob a proteção e cuidados dos antigos senhores, que o tinham como se filho fosse. Por ironia seu tutor e seu pai, chamavam-se Guilherme e foi com D. Clarinda – clara e linda – que aprendeu as primeiras letras.

Sua poesia representa bem o quanto são raros os poetas e escritores de origem negra ou mestiça reconhecidos no Brasil e denota além da musicalidade e sensualismo, uma obsessão pela cor branca, expressas pelas figuras de suas alvas musas, como objeto do desejo proibido e também de repulsa.

Àqueles que se limitam à sua obra, escapa a vida do homem que lutou contra o preconceito racial para além do contexto pessoal - já que vítima de discriminação – através da participação em jornais e publicações abolicionistas. Foi um exemplo daqueles que não se deixam abater pelas vicissitudes da vida, alcançando através da poesia a harmonia de suas cores tão límpidas como em “Cristais”:
“Mais claro e fino do que as finas pratas/ o som da tua voz deliciava…/ Na dolência velada das sonatas/ como um perfume a tudo perfumava.// Mais claro e fino do que as finas pratas/ o som da tua voz deliciava…/ Na dolência velada das sonatas/ como um perfume a tudo perfumava”.


Publicada na Revista Capita News em 09/12/2013

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