As minhas lágrimas regam os sentimentos mais puros e verdadeiros e me fazem renascer a cada nova estação. (Mônica Caetano Gonçalves Maio/2011)
Registro na Biblioteca Nacional nº: 570.118

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Um certo olhar


Imagem: Zygmunt Bauman

                Noite dessas assisti a uma entrevista com Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, laureado por sua prodigiosa produção intelectual e professor emérito das universidades de Leeds e Varsóvia. Do alto de seus 87 anos, falava sobre pós-modernidade, com imensa desenvoltura por todo seu cabedal de conhecimento, mas também por ter vivenciado todo esse movimento no século XX.
                Há certa polêmica quanto ao significado do termo pós-modernidade e sua pertinência, mas é certo que seu uso se tornou corrente, para definir a condição sociocultural e estética que prevalece no capitalismo contemporâneo e a consequente crise das ideologias.         
                Bauman parte do conceito de que essa fase histórica foi marcada pela passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo, chegando a analisar os processos de fragmentação da vida humana e a individualização em nossa sociedade, destacando a eterna busca de equilíbrio entre segurança e liberdade. Utiliza as redes sociais (que considero uma excepcional fonte de pesquisa para os estudiosos do comportamento humano) para exemplificar a banalização e superficialidade dos afetos do indivíduo contemporâneo. São, em sua opinião, uma expressão de liberdade nos relacionamentos interpessoais, (ilusórias, a bem da verdade), com a segurança, oferecida pelo distanciamento real, como uma forma de se evitar os possíveis desgastes, divergências de opinião e confrontos tão comuns entre pessoas que interagem no mundo real.
                Uma citação do sociólogo retrata bem a sua linha de raciocínio quanto às dicotomias do homem pós-moderno: O que aprendemos com a amarga experiência é que essa situação de ter sido abandonado à própria sorte, sem ter com quem contar quando necessário, quem nos console e nos dê a mão, é terrível e assustadora, mas nunca se está mais só e abandonado do que quando se luta para ter a certeza de que agora existe de fato alguém com quem se pode contar, amanhã e depois, para fazer tudo isso se - quando - a roda da fortuna começar a girar em outra direção.


Publicada na revista CAPITA Global News em 29-01-2013


domingo, 27 de janeiro de 2013

Chuva de verão


Imagem: Filme Chuvas de Verão - 1978 - Cacá Diegues

                Amanheci num dia desses de verão, em que a chuva não se cansa e mesmo quando cansa tem preguiça de parar. Seria muito bom poder gastar as horas numa rede em alguma varanda, na companhia de um bom livro; ouvindo boa música ou assistindo a um filme de arte. Mas o tempo e o trânsito seguem apressados.
                À revelia do rádio do carro, me pego cantarolando o refrão de uma música antiga, do final da década de 40 e que só se tornou um clássico com a versão gravada por Caetano Veloso, vinte anos depois. “Chuvas de verão”, de Fernando Lobo, reflete o clima de confissões amorosas que prolongavam ou encerravam romances iniciados nos ambientes das boites dos anos 40 e 50. O autor, além de pai de Edu Lobo, era pernambucano, um renomado cronista e jornalista. Radicado no Rio de Janeiro, atuou nas extintas revistas: "Carioca", "O Cruzeiro" e "A Cigarra".
                De um verão a outro, a memória me trouxe um drama dirigido por Cacá Diegues, um dos bons filmes do cinema nacional, que nos trouxe uma cena de amor belíssima e considerada revolucionária por mostrar o nu, o amor e o sexo na terceira idade. É de impressionar como desaprendemos como fazer cinema de lá pra cá, perdendo o olhar atento e individualizado sobre o povo e a vida cotidiana e transformando a maioria dos filmes atuais em um arremedo de hipocrisia coletiva, superficialidade sociológica e terror bélico.
                Fica a citação de D. Isaura, que nos torna imediatamente apaixonados pela trama do filme: "A vida não é como as águas do rio que passam sem descanso, nem como o sol que vai e volta sempre. A vida é uma chuva de verão, súbita e passageira, que se evapora ao cair”.
Enfim, foram apenas divagações da cronista, uma fuga ou associação de ideias em meio à chuva e o trânsito caótico da grande cidade.


Publicada no Jornal “O Pioneiro” em 27- 01-2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Eurídices

Imagem: Mãos - Óleo sobre tela - Maurício Takiguthi


Mãos que foram dadas,
dedilharam melodias,
carícias, acalanto e amparo.
Forjaram o pão e a vida,
empunharam sonhos e bandeiras ao vento
e tantas vezes, atadas, foram adeus.
Hoje, conduzem-me as penas e palavras,
atrizes de meus monólogos.

25/01/2013

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Rascunho

Imagem: Rascunho de Wave - Tom Jobim


Sou folha amarelecida
pela história esquecida por tuas penas,
fragmentos de lembranças,
dos sonhos
que não ousaste sonhar.


24/01/2013

domingo, 20 de janeiro de 2013

Uma mina de ouro


Imagem: Biblioteca Nacional - RJ

Um fato inegável: o brasileiro está lendo mais a cada ano, todas as pesquisas são unânimes, apesar das discrepâncias estatísticas. É inegável também, que as editoras internacionais estão ávidas por esse filão de ouro e vem investindo bastante em nosso mercado.
Cabem aqui alguns dos “W’s” do marketing, seja para escritores ou editores. Em primeiro lugar, é a chamada “nova classe média”, no centro do palco econômico, que está incrementando as vendas de livros e o setor vem se adaptando às suas necessidades de aprimoramento, gostos e desejos, além de disponibilizar edições mais baratas.
É certo que em décadas passadas, encontraríamos muito mais autores de maior prestígio nas temerárias listas de mais vendidos, reflexo de um país em que só uma casta podia cultivar o hábito da leitura. Hoje, espelham os interesses de uma leva nascente de leitores.
Entre os títulos de ficção, ainda há um grande predomínio de autores internacionais. Destacam-se por aqui, ainda timidamente, os que se dedicam a uma literatura mais popular e contam com o apoio da mídia ou fazem parte dela. Fala-se muito no que se poderia chamar de falta de sintonia: a grande massa de leitores parece interessar-se por leituras rápidas, como fonte de diversão, enquanto a maioria dos escritores brasileiros está focada apenas na obra maior, em geral complexa e problemática.
Já no segmento de não ficção, o cenário é outro. O público prefere assuntos que lhe são próximos, sobre nossa história, nossa gente, personalidades e celebridades nacionais, o que vem dando um destaque especial às biografias, um segmento primordial.
Sempre ouvimos dizer que precisamos formar leitores e concordo plenamente que devamos continuar a fazê-lo. Ouso dizer, além disso, que é necessário formar autores no Brasil também, que prescindam de prêmios literários e não da qualidade; e estejam em sintonia com os interesses do leitor do século XXI, a chamada literatura comercial, que faça frente aos sucessos estrangeiros.


Publicada na Revista CAPITA Global News e  Jornal “O Pioneiro” de 20-01-2013

sábado, 19 de janeiro de 2013

Arco-íris






Léguas e pés descalços,
trôpegos caminhos.
Vou,
íris e arco.



19/01/2013

domingo, 13 de janeiro de 2013

Trem de Minas


Imagem: Serro - MG

                A tradição cultural e tantas outras histórias do povo mineiro romperam suas fronteiras e passaram a figurar como parte integrante do perfil, dos hábitos e costumes do brasileiro, além de atrair os olhares dos povos de outras paragens que nos visitam. Assim foi com nossa música que invadiu os palcos do mundo e nossa gastronomia típica que ganhou as mesas em outros horizontes.
                Um dos melhores exemplos dessa abrangência gastronômica entre as iguarias brasileiras é o mineiríssimo queijo, fabricado de maneira artesanal em pequenas fazendas do interior de Minas, como os tradicionais da Serra da Canastra, do Serro e do Alto Paranaíba.
                Entretanto, como muitos sabem, após um decreto federal de 2000, estabelecendo normas sanitárias rígidas, esse queijo delicioso produzido a partir de leite cru, foi praticamente sitiado em seu estado natal não podendo mais ultrapassar as fronteiras de Minas.
                Muito além do prejuízo financeiro dos pequenos produtores, preocupa-me a possibilidade de perda dessa produção artesanal, passada de geração a geração e que está bem retratada no documentário “O Mineiro e o Queijo” de Helvécio Ratton. Uma tradição de mais de 300 anos, que no início era somente uma maneira inteligente de conservar o leite, que assim “curado” alimentava as famílias e os tropeiros da região, quando nem se sonhava com refrigeração.
                Há uma magia e muitos segredos nas receitas que as famílias guardam carinhosamente. Apesar de produzidos em todo o país, com as tais normas sanitárias, um queijo da Canastra só é legítimo se for produzido lá, como diz um dos fazendeiros: “Me perguntam o segredo. Eu digo que só vindo para a Canastra, senão é impossível fazer um queijo como o nosso”.
                Em cada lugar há um queijo com características próprias, influenciadas pelo clima e solo. Mas há diferenças muito mais sutis, mesmo nos queijos da mesma região e até da mesma fazenda.
                 E que persistam em criar encantamentos para o nosso paladar!
               
Publicada  na Revista Capita Global News e no Jornal “O Pioneiro” de 13- 01-2013.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Dia branco




E só o bendito,
o bem-te-vi,
que tanto bem quero,
ousa o canto
na manhã branca
que chora meus lamentos.

11/01/2013

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Remanso






Manhã longa e mansa,
Sem burburinho de vozes,
Quase calmaria...
Sigo no remanso,
Enquanto a brisa
Sopra em meus ouvidos
O tempo que urge.
Inquieta-me o arrepio.


Imagem: Giverny, França - jardim de Monet - Fonte: Google
07/01/2013

domingo, 6 de janeiro de 2013

Elegia a muitas viagens


Imagem: Praia de Itaoca – Fonte Google

Viajar é um grande prazer, afirmação que sempre me vem à mente associada à música Encontros e Despedidas, de Fernando Brandt e Milton Nascimento. É bem provável que todo esse anseio por voos, em respirar outros ares e estar em outras paragens se deva à condição mediterrânea e toda a atávica influência das bandeiras que aqui chegaram.
Dia desses, assistindo Elegia de Uma Viagem, filme de Alexander Sokurov, fiquei a pensar, não tão subjetivamente como ele, sobre as minhas próprias, nem tantas quantas gostaria; especialmente sobre o que mais encanta meu olhar.
É inadmissível negar as maravilhas das paisagens de um país com uma geografia espetacular como a nossa e tampouco negar o fascínio que o mar exerce sobre quem vê as ondas se insinuando num belo horizonte. Mas acredite, conhecer mais dessa nossa cultura plural e especialmente aproximar-me de nossa gente é o que mais me fascina.
Assim, descobrir esquecida nos 1700, tempo em que foi capital do Ceará, a pequena Aquiraz, hoje terra de rendeiras que cantam enquanto tecem e de jangadeiros, que colhem no mar o sustento. Em outro olhar, sentar-me ao lado do ancião, de mãos calejadas, esculpindo arte em madeira, a canivete, na região de Natal.
Mas há um canto, de lembranças doces, que povoa meus arquivos dos anos 80. Águas calmas e areia branca, a praia de Itaoca, na região de Itapemirim, guarda muitas histórias de gente boa e feliz em toda sua sabedoria e simplicidade. Lá passei vários verões, quando pouco mais havia além da vila dos pescadores. Uma comunidade acolhedora, que nos recebeu como iguais, participantes e atores daquele pequeno mundo imenso que a eles pertencia. Bom lembrar da alegria de Zizi com a vela nova para seu barco, das visitas à casa de Donino e das noites no forró, que nem era universitário.
E melhor é poder voltar para meu porto, trazendo toda essa gente comigo!

Publicada no Jornal “O Pioneiro” em 06-01-2013

sábado, 5 de janeiro de 2013

Flor e essência

Imagem: Foto by Jones Poa


Se me faço muda
e tantas vezes me calo,
é por saber da semente
o tempo de florescer.

05/01/2013

Madrigais




Frescor de pássaros,
segredando na manhã a melodia da vida,
poesia sem palavras no mundo concreto,
movendo meus moinhos ao sabor do tempo
à espera de bons ventos.


Imagem: Elisabeth Carolan - Coro do Amanhecer
05/01/2013

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Em fatias

Imagem: O relógio - Salvador Dali



Fatiado,
Faz um segundo,
O primeiro, contado.
Como fosse possível parar o prosseguir,
para ver o tempo passar.

01/01/2013