As minhas lágrimas regam os sentimentos mais puros e verdadeiros e me fazem renascer a cada nova estação. (Mônica Caetano Gonçalves Maio/2011)
Registro na Biblioteca Nacional nº: 570.118

domingo, 20 de outubro de 2013

Caso de Família


Imagem: Goethe Gallerie – Wilhelm Von Haubath -1890


Sem que inicialmente me ocorresse o motivo, lembrei-me de um desses casos, repetidas vezes contados que toda família tem. Uma entre tantas histórias de meu bisavô Martim, alemão católico que escolheu o Brasil como pátria de seus filhos.

Na casa de cozinha grande e fogão de lenha, a avó, mãe e tias preparavam o almoço animadas pela conversa, sem se descuidarem do menino, com seus três anos de idade, que brincava por lá. Todas o advertiam quando se aproximava do fogão, encantado pelo brilho e cor das chamas, novidades em seu mundo de magia infantil.

Calmamente sentado à mesa, lendo seu jornal, Vô Martim chama o pequeno e leva-o até o fogão, aproximando a mãozinha arteira do fogo para que sentisse o calor e explicando que poderia se queimar.
               
Depois disso, antes de voltar à sua leitura, chama a avó:

- Jovelina, traz a pomada e que nenhuma de vocês fale mais nada com ele - sentenciou.

Naturalmente, não tardou e o pequeno Robson queimou os dedinhos nas brasas, chorando desconsolado como toda criança depois das travessuras desastradas.

- Fem cá no Fofô! - disse Martim, com seu sotaque carregado.
- Fofô não disse que faz totói? – completou enquanto socorria o pequeno com o unguento que aliviava as dores.

A lição também é para os mais protetores, nem sempre réus confessos como eu. À teimosia infantil e onipotência adolescente, ambas surdas, é a experiência dolorida que ensina. Cabe-nos, com nossas próprias cicatrizes, acalentar-lhes o choro sentido até que entendam que os erros na vida não são como rabiscos que se apagam com borracha; que são suas marcas que firmam nosso passo e orientam o caminho.

Histórias como esta se tornam encantadas em nossas memórias, quase lendas, plenas de saudades. Parafraseando Clarice Lispector, sempre oportuna: Um dia meu anjo da guarda, vestido de pai, disse-me que teria que fazer tudo por mim mesma e foi embora.


Publicada no Jornal “O Pioneiro” em 20/10/2013

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