As minhas lágrimas regam os sentimentos mais puros e verdadeiros e me fazem renascer a cada nova estação. (Mônica Caetano Gonçalves Maio/2011)
Registro na Biblioteca Nacional nº: 570.118

sábado, 18 de maio de 2013

XXI


Imagem: The Face of Peace by Pablo Picasso 1950


 Já morri muito.
 Hoje, vivo,
enquanto não termino.


18/05/2013 

Navegante

Imagem: Foto by Jones Poa



Vira o tempo
e o olhar se encomprida,
no longinquo, espera
enquanto o derradeiro luzir
se espraia,
antes de apoitar
seus versos
no clarão da lua.
 
 
18/05/2013

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Imagem de Barros



Imagem: Casa de Pássaros – Martha Barros
               
Lá vai a menina, em seu vestido de chita, colorindo um verão de sua infância. Seca os longos cachos ao vento quente que o sol sopra, depois da brincadeira no riacho que faz curva que nem cobra de vidro cercando os fundos da casa. Sabe que a borboleta é uma cor que voa e pouco mais sobre o mundo que vê na televisão, na pequena cidade em que vive. Tudo aquilo que não sabe, inventa, fazendo com que seu universo seja imenso. Inventa navios com pequenas latas flutuando na água rasa, bonecas de gravetos, retalhos e meias velhas e se vê princesa, sem imaginar o príncipe encantado, na carruagem de caixa de fósforos puxada por um besouro.

Deitada sob as árvores do pomar desenha bichos e coisas nas nuvens de algodão que passeiam no céu. É lá que passa horas pensando na escola da capital, transvendo uma história sua que ainda está por escrever com as letras redondas e caprichadas que borda no papel. Só mesmo morando com a Dinda, naquelas casas esquisitas empilhadas sobre outras, que chamam apartamento. Terá que se acostumar a ficar sem o pomar e as flores do jardim, o canto dos pássaros que pintam o azul, o som distante do sino da igreja que anuncia o passeio na praça. Já sente saudades do algodão doce que perfuma os domingos e de tudo o que tem aqui e não poderá levar junto.

Acorda do que parece um pesadelo com a voz suave da mãe chamando-a de volta ao seu sonho. Lembra que é dia de feira, enxuga a lágrima que seria rio e segue feliz para ouvir as conversas das comadres, ver todos os verdes e o colorido doce das frutas. Na volta, desinventa a chuva que armou e por não ter amanhecido, só choverá em algum outro amanhã. 

É cedo, menina! Deixa que os traços os caminhos da vida desenhem.

Publicada na Revista CAPITA Global News em 17/05/2013

terça-feira, 14 de maio de 2013

Muralhas

Imagem: Ouro Preto - Foto de acervo pessoal


Exausta,
estanco.
Diante e distantes de mim,
ouço meus ecos
clamando por ninguém.


13/05/2013

Cervantes

Imagem: Dom Quixote - Pablo Picasso


Teu olhar sabe
os moinhos ao vento
e teus embates
com tuas tantas quimeras,
são por teus sonhos
 sobreviventes.


14/05/2013

domingo, 12 de maio de 2013

Colheitas




                                                            Imagem: A colheita do algodão – Cândido Portinari.
 
               
Um dia você acorda. Pela manhã, diante do espelho, constata que o tempo amigo e condescendente, nos deixa seguir nos passos improvisados na melodia da vida e guardar em cada ruga a esperança menina, que já não ouve, mas conta suas próprias histórias e convive harmonicamente com nossas vivências. Entende que o mundo é senhor de si e a todos abriga com nossos infinitos universos individuais e que os sonhos colhidos fazem brotar outros das sementes de nossas escolhas.

 Bom é pensar na fecundidade do colher, palavra que sintetiza desde a seleção das sementes que se planta até seu amadurecimento e dá origem a outra, que considero das mais necessárias em nosso vocabulário afetivo. Acolher é receber o outro, sem reservas; o que alguns teóricos chamam de empatia e dito poeticamente, ver no outro a sua própria humanidade. Somam-se ainda, o dedicar-se a ouvir, doar o espaço necessário para a entrega mútua. E inevitavelmente o abraço, o colo, o carinho de um afeto despretensioso, absolutamente indispensável a todos nós. Quando nos encontramos assim, simplesmente gente buscando gente como iguais em suas sutis diferenças; o acolhido acolhe o acolhedor.

Versos de Helena Kolony¹ sussurram em minhas lembranças: "Poeira esparsa no vento/ apenas passamos nós./ O tempo é mar que se alarga/ no infinito presente." Os versos inspiram a compreensão de que somos nós que singramos o tempo, como naus traçando sua própria trajetória e trazem consigo alguns dos ensinamentos do pai em “Lavoura arcaica”, sobre como conviver com o tempo, sem contrariá-lo e mantendo-se atento ao seu fluxo.

Na travessia do tempo, que se estende como um espelho d’água diante de nós, há menos que se fixar no reflexo da própria imagem como Narciso e mais que cuidar da navegação, seja ela conduzida por bons ventos, remadas compassadas ou pulso firme nas tempestades. E sempre, sob sol ou noite enluarada, desfrutar as boas companhias da viagem.

¹ Helena Kolony, poetisa paranaense (1912-2004).
Publicada no Jornal “O Pioneiro” em 12/05/2013

Às Moscas

 

Imagem: Fonte Google.



Em algum canto li que a primeira frase de uma crônica é sempre a mais difícil, assim como nem sempre são fáceis os prefácios e epílogos da vida. De certo, mananciais como Braga são raros, “sempre bom” e “quando não tem assunto, então, é ótimo”, com a permissão de  Manuel Bandeira. Enfim, confesso que amanheci com a imaginação às moscas. Talvez devesse ter acordado mais cedo para fazer o dia maior ou ouvir no rádio aulas de esperanto, como Sizenando.

 E com as moscas voei até Augusto Monterroso. O especialista em bichos capaz de fazer de um dinossauro o menor conto do mundo com suas sete palavras imensas, aconselha a todo aquele que se pretenda escritor a dedicar um poema, uma página, um parágrafo, uma linha ao menos às moscas. Dizia haver somente três grandes temas - o amor, a morte e as moscas – e como que fascinado, declinava dos dois primeiros pelas últimas, que considerava melhores do que os homens. Na idéia sobre uma antologia sobre as moscas, que concluiu praticamente infinita, exalta a importância atemporal do incômodo ser alado: "A mosca que hoje pousou no seu nariz é descendente direta da que pousou no nariz de Cleópatra."

Viro a página, folheio os jornais em vão; deparo-me com a apóstrofe acrescentada pela mosca à palavra escrita por Lydia Davis na página em branco, "A Mosca - No fundo do ônibus, no banheiro, este micropassageiro ilegal, a caminho de Boston". Preciso, definitivamente, aprender a ler os origamis filosóficos de Davis e decifrar seus cotidianos sentimentos apresentados em essência.

É Sizenando, por hoje passa! Amanhã madrugo, sem me importar que “haja milhões de brasileiros dormindo insensatamente, enquanto outros milhões tomam café ou banho de chuveiro ou já marchem para o trabalho”¹ e saio para caminhar. Quem sabe respiro o jardim da cultura, "plena de floroi" de Braga e me inspiro? No fim, sempre resta o esperanto.
  
¹Rubem Braga em “Sizenando, a vida é triste”, Rio, junho 1958, do livro “Ai de ti, Copacabana”, Editora Record.


Publicada na Revista CAPITA Global News em 12/ 05/2013